Originalmente publicado na Folha de São Paulo, São Paulo, 11.11.1987.


Wordsl

Eduardo Kac

A holopoesia é um projeto interdisciplinar que pretende colocar novos problemas para a arte que se situa entre os códigos verbais e visuais, valendo-se para isso das imensas potencialidades estéticas deste "high tech medium" que é a holografia. Quando a concebi, em I983, não havia nenhum programa rígido de pesquisa, e sim o desejo de descobrir de que maneira a composição luminosa imaterial poderia suscitar a concepção de uma nova sintaxe, que se fundamentasse radicalmente no complexo perceptivo humano e no contínuo espaciotemporal do holograma. Assim cada holopoema criado entre 1983 e 1986 significou para mim novas descobertas plásticas e poéticas. Os holopoemas "Wordsl nº 1" e "Wordsl nº 2" são fruto de uma sintaxe que se oganiza em um espaço curvo e contraído opticamente, o que acarretou no comportamento irregular das letras que desordenadamente sugerem as palavras "mundos" e "palavras" em inglês.

A técnica empregada é a holografia integral, assim conhecida por integrar cinema e holografia em um composto que que produz não apenas profundidade e paralaxe (capacidade de enxergar ao redor de um objeto) mas também o movimento. Originalmente, me pendurei de cabeça para baixo e orientei o enquadramento cinematográfico de modo a registrar apenas a cabeça, sem o resto do corpo. Em seguida, dispus as letras W, O, R, D, S e L ao redor de minha cabeça em 180°. Cada letra foi disposta no espaço de modo não convencional: a letra W foi posta com sua linha reta lateral paralela ao chão; a letra O foi disposta de maneira a permitir visibilidade parcial para a cabeça; a letra R foi inclinada obliquamente para a direita e para trás, indicando profundidade; a lateral da letra D ficou paralela ao chão, simbolizando uma janela através da qual via-se parte da cabeça; a letra S foi colocada perpendicular ao observador, que só identificava sua forma olhando de um lado ou de outro, e a letra L foi invertida de ponta-cabeça. Ao fundo, minha cabeça girava e eu emitia uma gargalhada, perceptível pelo movimento dos lábios.

Todos esses elementos, originalmente em um espaço de 180°, foram filmados e transferidos para um holograma de 90°, resultando em uma anamorfose (deformação da imagem) obtida opticamente. A contração do espaço foi obtida por meios óticos e todos os elementos presentes nesse espaço se contraíram ou metamorfosearam também opticamente.

Como o espaço foi concebido de maneira curva, a curvatura irregular e a contração ótica se somaram para configurar um espaço experimental, onde as letras dramatizaram suas formas gráficas e a cabeça ganhou uma ambiguidade formal e simbólica. Em "Wordsl nº 1" o espectador identifica a organização descrita acima. Já em "Wordsl nº 2", busquei um diálogo com a primeira peça explorando a noção holográfica de "espaço pseudoscópio" que é espaço invertido de dentro para fora; na segunda peça, o leitor percebe apenas faixas luminosas com partes da imagem se deslocando verticalmente, o que sugere uma espécie de varredura típica de meios eletrônicos. Como os dois holopoemas foram produzidos com a técnica de transmissão a luz branca (que faz com que a imagem seja reconstruída por uma fonte de luz situada atrás do holograma) -- técnica que elimina a paralaxe vertical --, "Wordsl nº 2" tenta amplificar o poder expressivo do meio forçando-o a produzir informação no eixo vertical.

A questão do espaço curvo em arte não é absolutamente nova. A origem da problema se encontra ns apropriação que artistas de vanguarda do começo do século, como os pintores cubistas, fizeram das noções revolucionárias criadas pelo matemático alemão Georg Friedrich Bernhard Riemann em 1854 em seu sistema geométrico não euclidiano. Riemann concebeu uma geometria baseada em superfícies de curvatura positiva constante (que pode ser representada pelo exterior de uma esfera) e sugeriu a possibilidade de superfícies ou espaços nos quais a curvatura poderia variar onde uma figura não poderia ser movida sem que ocorressem mudanças em sua forma e propriedades. A principal conquista de "Wordsl", no que diz respeito à elaboração em arte do espaço curvo, é que os signos ganharam um componente dinâmico, operando a mudança da forma diante dos olhos do observador. Quem olhar atentamente "Wordsl nº 1 " poderá encontrar na extrema direita a letra W deformada no interior do holograma (imagem virtual). Ao se locomover para a extrema esquerda, o observador perceberá que a letra "deu a volta" por trás do conjunto para surgir com sua forma original, proporcional e harmônica, na frente do holograma (imagem real), invadindo o espaço do próprio observador.


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