Originally published in Valor, September 25, 2000.


Artista brasileiro cria obra de arte transgênica

Paulo Braga | De Chicago, para o Valor

Um artista brasileiro que vive em Chicago desenvolveu junto com
cientistas franceses uma "obra de arte viva", um coelho cujo DNA foi
combinado ao de uma água-viva fosforescente, fazendo com que ele
brilhe no escuro.

Alba, idealizada pelo carioca Eduardo Kac, coloca em debate os riscos
e possibilidades das novas tecnologias. O animal faz parte do que o
artista chama de projeto GFP Bunny, sigla em inglês para proteína
verde fosforescente, que inclui a criaçao do ser vivo, o debate gerado
por sua existência e sua interaçao com Kac, sua mulher e sua filha de
quatro anos na casa da família, em Chicago.

Alba foi criada pelo laboratório do Instituto Nacional de Pesquisa
Agronômica da França. Mas, ao menos por enquanto, Kac nao pode
realizar a terceira parte de seu projeto - a interaçao com o animal -
já que a direçao do laboratório se nega a permitir que o coelho saia
de suas dependências.

Advogados do Instituto de Arte de Chicago, onde Kac leciona como
professor-assistente, estao atuando em seu nome para trazer o coelho
para os EUA.

O animal, que nasceu em fevereiro, emite uma luz verde quando visto
sob luz ultravioleta, usada comumente em discotecas. A técnica
utilizada pelo laboratório francês consistiu em injetar no embriao um
gene responsável pela produçao de uma proteína fluorescente
originalmente encontrada em águas-vivas.

A proteína verde já vem sendo usada por pesquisadores, aplicada a
determinadas células para, por exemplo, auxiliar no estudo da açao de
certas substâncias químicas ou monitorar o crescimento de tumores.

Mas Kac parece ter sido o primeiro a aplicar de maneira tao radical a
descoberta científica, buscando, segundo ele, novas fronteiras para a
expressao artística. O artista define seu trabalho como "arte
transgênica".

"O trabalho de Kac faz com que o foco seja direcionado de volta aos
cientistas", disse ao jornal "Boston Globe" Stuart Newman, professor
de biologia celular e anatomia na Faculdade de Medicina de Nova York.
Segundo ele, "há animais terrivelmente deformados em pesquisas
transgênicas e cientistas muitas vezes fizeram esse tipo de coisa sem
uma boa base teórica". Newman foi um dos participantes de um seminário
na Faculdade de Direito Chicago-Kent sobre o trabalho do brasileiro.

O artista, que vive há 11 anos nos EUA, diz nao estar surpreso com a
rejeiçao manifestada em relaçao ao seu trabalho, já que ele usa um
meio inédito, sem tradiçao na expressao artística.

Kac explica que decidiu deixar o Brasil devido a limitaçoes de acesso
à tecnologia que vinham impedindo que realizasse o seu trabalho.





Versao integral (esta sem acentos)


Paulo Braga
De Chicago, para o Valor
Um artista brasileiro que vive em
Chicago desenvolveu junto com
cientistas franceses uma "obra de
arte viva", um coelho cujo DNA foi
combinado ao de uma agua-viva
fosforescente, fazendo com que ele
brilhe no escuro.
Alba, idealizada pelo carioca
Eduardo Kac, coloca em debate os
riscos e possibilidades das novas
tecnologias.
O animal faz parte do que o artis-
ta chama de projeto GFP Bunny, si-
gla em ingles para green fluores-
cent protein (proteina verde fos-
forescente), que inclui a criacao do ser vivo, o debate gerado por sua
ex- istencia e sua interacao com Kac,
sua mulher e sua filha de quatro
anos na casa da familia em Chicago.
Alba foi criada pelo laboratorio
do Instituto Nacional de Pesquisa
Agronomica da Franca. Mas, ao
menos por enquanto, Kac nao pode
realizar a terceira parte de seu pro- jeto _a interacao com o animal_
ja
que a direcao do laboratorio se nega a deixar que o coelho saia de
suas
dependencias.
Advogados da Escola do Art Insti-
tute of Chicago, onde Kac leciona
como professor assistente, estao
atuando em seu nome para trazer o
coelho para os EUA.
O coelho, que nasceu em feverei-
ro, emite uma luz verde quando vis-
ta sob luz ultravioleta, usada comu- mente em discotecas. A tecnica
usa-
da pelo laboratorio frances consis-
tiu em injetar no embriao um gene
responsavel pela producao de uma
proteina fluorescente original-
mente encontrada em aguas-vivas.
Louis-Marie Houdebine, cientis-
ta do laboratorio de Jouy-en-Josas,
a 30 minutos de Paris, que criou o
coelho, disse que o animal eh sauda- vel. A proteina verde ja vem
sendo
usada por pesquisadores, aplicada
a determinadas celulas para, por
exemplo, auxiliar no estudo da acao
de certas substancias quimicas ou
monitorar o crescimento de tu-
mores.
Mas Kac parece ter sido o primei-
ro a aplicar de maneira tao radical a descoberta cientifica, buscando,
se- gundo ele, novas fronteiras para a
expressao artistica.
"O projeto GFP Bunny abre um
caminho novo, porque estamos fa-
lando de um ser vivo", disse em en-
trevista ao Valor.
Ele define o seu trabalho como
"arte transgenica", buscando "in-
corporar a compreensao cientifica
e outras formas de comunicacao"
aa arte.
O artista, que vive ha 11 anos nos
EUA, disse ver seu trabalho -a real- izacao de uma obra de arte a
partir
de conhecimentos cientificos- como
uma continuacao da tradicao in-
iciada no seculo 20 de "se afastar do trabalho manual, do objeto
fisico".
Ele diz nao estar surpreso com a
rejeicao manifestada em relacao ao
seu trabalho, ja que ele se utiliza de um meio inedito, sem tradicao
na
expressao artistica, para comuni-
car seu "entendimento do mundo".
"(O trabalho de Kac) faz com que
o foco seja direcionado de volta aos cientistas", disse ao jornal
"Boston Globe" Stuart Newman, professor
de biologia celular e anatomia na
Faculdade de Medicina de Nova
York (New York Medical College).
Apesar de criticar o trabalho de
Kac, Newman disse que "ha ani-
mais terrivelmente deformados em
pesquisas transgenicas, e cientis-
tas muitas vezes fizeram esse tipo
de coisa sem uma boa base teorica".
Newman foi um dos participa-
ntes anteontem de um seminario na
Faculdade de Direito Chicago-Kent
(Chicago-Kent College of Law)
sobre o trabalho do brasileiro,
"Arte, Ciencia e Liberdade de Ex-
pressao".

Kac conta que decidiu deixar o
Brasil devido a limitacoes de acesso a tecnologia que vinham impedin-
do que realizasse o seu trabalho. Ci- ta o exemplo de quando usava um
aparelho de raio laser para produzir holografias, que quebrou
e nao pode ser consertado.
"Havia condicoes tecnologicas
que eram impossiveis de superar
no Brasil. Ou eu desistia ou busca-
va uma alternativa", afirmou.
Kac atuou como artista perform-
atico no inicio dos anos 80 no Rio de Janeiro. Participou em 84 da
exposicao
"Como Vai Voce, Geracao 80?", no Parque Lage.
Sua obra "Genesis" esta em exposicao na galeria Exit Art, em Nova
York, e ate 24 deste mes no Centro Cultural Itau, em Sao Paulo. No
trabalho, Kac transformou uma passagem do livro biblico para codigo
Morse, que depois foi convertida em DNA. O gene sintetico criado a
partir do texto foi transplantado para uma bacteria, e cada pessoa que
visita o link da exposicao na internet faz com que uma luz
ultravioleta se acenda sobre a colonia de bacterias, causando uma
mutacao.
O codigo genetico alterado da bacteria eh novamente transcodificado
para codigo Morse e depois escrito.


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