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Artista faz lançamento
de seu mais recente livro Luz e Letra - Ensaios de Arte, Literatura
e Comunicação e palestra sobre seus trabalhos dos últimos
anos no SESC Pompéia
Eduardo Kac é um dos artistas mais polêmicos da atualidade.
Seu último trabalho, apresentado na Bienal de São Paulo,
foi uma criação frankesteniana. Uma planta, com folhas que
podem ser desenhadas antes que cresçam. O trabalho é manipulado
com os genes do vegetal antes de plantar a semente na terra. No entanto,
sua obra mais conhecida foi criada em 2002, quando fez nascer em laboratório
um coelho com pelos fluorescentes - passando assim do estágio de
artista da representação de idéias para o da criação
e manipulação da vida. O artista chega ao Brasil para o
lançamento de seu mais recente livro Luz & Letra - Ensaios de Arte, Literatura e Comunicação, e para uma palestra no SESC Pompéia (rua Clélia, 93) na terça-feira, 14 de dezembro, às 20h.
Após ter ser
formado em Comunicação Social, Eduardo mudou-se para EUA
e obteve mestrado em artes plásticas na The School of the Art Institute of Chicago, instituição onde hoje é professor e diretor do Departamento de Arte e Tecnologia. Durante a década de 80 escreveu mais de 80 artigos para os principais jornais do Brasil, agora reunidos em Luz & Letra. Obras de Kac são exibidas regularmente na América do Sul e do Norte, na Europa, na Austrália e na Ásia. Por isso já ganhou diversos prêmios, entre eles: Creative, Capital Foundation, New York (2002); Greenwall Foundation, New York (2001); e Montreal (2000).
O livro Luz & Letra - Ensaios de Arte, Literatura e Comunicação reúne textos que refletem o interesse em articular as principais conquistas da arte eletrônica brasileira. Organizado em três partes a publicação discute a Arte e Tecnologia, Tecnologia e Sociedade e Literatura e Tecnologia. A primeira parte inclui artigos sobre artes plásticas, com ênfase na década de 80, com ênfase na então chamada "arte high tech" e que hoje é conhecida com "arte eletrônica ou digital". A segunda parte cobre alguns aspectos do impacto causado por novas tecnologias na sociedade e a terceira parte, textos sobre prosa e poesia experimentais, do poema pornô aos caligramas de Apollinaire. Há, também, outros textos sobre a relação da poesia e novas tecnologias.
Leia a seguir entrevista
concedida pelo artista plástico ao Portal SESC SP. Para mais sobre
Eduardo Kac acesse http://www.ekac.org
Portal
SESC SP - O seu livro Luz &0 Letra - Ensaios de Arte, Literatura e Comunicação é uma espécie de retrospectiva
de seus trabalhos. Na perspectiva da arte digital, quais são as
mudanças fundamentais que você apontaria no seu trabalho
nos últimos anos?
O livro é uma espécie de retrospectiva, mas é importante
observar que o livro apresenta textos e obras produzidos na década
de 80, precisamente entre 1982 e 1988. Nesta década explorei novos
caminhos para a poesia, sobretudo com a invenção da poesia
holográfica, ou holopoesia, em 1983. Holopoemas que nesta época
exibi no MIS, na Pinacoteca, na FAAP, e em outros lugares, estão
documentadas no livro. Na década de 80 também explorei as
telecomunicações, chegando a realizar meu primeiro trabalho
de telepresença (ou seja, acoplamento da robótica com as
telecomunicações), que continuei a desenvolver ao longo
dos anos 90, e que hoje faz parte integral do meu vocabulário estético.
A principal mudança entre meu trabalho da década de 80 e
90 é a guinada biotecnológica, ou seja, o desenvolvimento
de uma estética baseada na própria lógica da vida,
bio-lógica.
Portal SESC SP - A partir do seu
trabalho é possível pensar que a manipulação
genética pode transpor o espaço científico e passar
para o domínio da arte. Quais seriam as diferentes abordagens (da
arte e da ciência) no que diz respeito à genética?
A manipulação genética já transpôs o espaço científico e passou para o domínio da vida cotidiana. Não há razão para pensar que a arte deve ignorar um fato de tamanha importância cultural e social. A ciência busca compreender como os genes a as proteínas se formam e interagem na geração da vida, e busca desenvolver produtos industriais com este conhecimento. A arte, como sempre foi o caso, traz uma visão pessoal, marcademente subjetiva, e crítica. Por um lado, a arte inventa novas formas e novas formas de pensar a vida. Por outro, aponta direta ou indiretamente as falácias do reducionismo em que a genética por vezes cai.
Portal
SESC SP - As produções artísticas,
por seu caráter teoricamente público, poderiam ser consideradas
em contraposição aos grandes laboratórios (responsáveis
geralmente pelo controle destas tecnologias), um meio de antecipar, discutir
e publicar os possíveis caminhos da manipulação genética?
Como se sabe,
a função da arte não é servir de comentarista.
A arte é, ela mesma, uma forma direta de intervenção
na sociedade -- sem jamais deixar de se preocupar com questões
que são pessoais (de cada artista) e poéticas (produção
de novas linguagens, de novas formas, de novas relações).
Dito isto, sim, a arte manifesta de maneira explícita aquilo que
faz parte de toda atividade humana mas que a ciência suprime, ou
seja, o uso de metáforas, o pensamento simbólico, o papel
da ideologia na geração de conhecimento.
Portal SESC SP - Ainda nessa temática,
como poderíamos pensar numa ética no que diz respeito aos
trabalhos artísticos, como por exemplo em sua experiência
GFP Bunny, que relacionam tecnologias à produção
de obras-genéticas?
A questão da ética está embutida na est-ética. A meu ver, a verdadeira questão não é como um ser vem ao mundo, mas como a sociedade se posiciona com relação a este ser por ter vindo ao mundo desta ou daquela forma.
Portal
SESC SP - Em países como o Brasil, com questões
sociais bastante relevantes, qual seria o papel principal da arte digital?
Quais as dificuldades de se fazer arte-tecnologia no Brasil?
O papel da arte digital deve ser entendido da mesma forma que toda arte, sem nenhuma diferença. Não se pode cobrar da arte que ela diretamente transforme a sociedade. Esta é uma tarefa política. Quais as dificuldades de se fazer arte-tecnologia no Brasil hoje? Isto nos traz de volta ao livro "Luz & Letra". As dificuldades na década de 80 eram monumentais, mas ainda assim, com perseverança, um grupo de artistas conseguiu fazer um trabalho estéticamente de ponta, e parte deste legado está documentado no livro. Hoje é bem mais fácil do que há 20 anos atrás, mas quanto mais se leva adiante o debate, mais o horizonte se distancia. É uma dialética intrínsica ao fazer da arte.
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