Publicado como folheto avulso pelo centro cultural Casa das Rosas, São Paulo, por ocasião da realização da obra, em Novembro de 1997. Tradução de Irene Hirsch e Solange Lisboa. Republicado como "Time Capsule", em Ars Telematica -- Telecomunicação, Internet e Ciberespaço, Claudia Gianneti, ed., Relógio D'Água/Goethe Institute, Lisbon, pp. 237-242, 1998.


TIME CAPSULE

Eduardo Kac

INTRODUÇÃO

"Time Capsule" é uma obra-experiência que se encontra em algum lugar entre um evento-instalação, uma obra física de local específico, na qual o local é ao mesmo tempo o corpo do artista e um banco de dados localizado nos Estados Unidos, e uma transmissão simultânea na TV e na Web. O objeto que dá nome à obra é um microchip que contém capacitor e bobina integrados ao chip, todos lacrados hermeticamente em vidro biocompatível. O chip contém também um número de identificação pré-programado e irrepetível. A escala temporal do trabalho estende-se entre o efêmero e o permanente, ou seja, entre os poucos minutos necessários para a conclusão do procedimento básico, a implantação do microchip, e o caráter permanente do implante. Assim como acontece com outras cápsulas do tempo subterrâneas é sob a pele que essa cápsula do tempo digital se projeta no futuro.

O PROCEDIMENTO

Ao entrar na galeria onde esta obra se realiza, o público vê um médico e um leito hospitalar cercado por um computador on-line, por equipamento adicional de transmissão e um dedo telerobótico. O médico inicia os procedimentos básicos limpando a pele do meu tornozelo com um antisséptico, insensibilizando uma pequena área com um analgésico. Eu concluo o procedimento usando uma agulha especial para inserir subcutaneamente o microchip passivo, que é, de fato, um transponder sem fonte de alimentação nem partes móveis, isto é, nada nele precisa ser trocado ou substituido. O processo de escanear o implante com um scanner portátil gera um sinal de rádio de baixa energia (125 Khz) que energiza o microchip. Este então transmite seu inalterável e único código numérico de 16 caracteres, mostrado na tela de cristal líquido do scanner. Imediatamente após obter esta informação, registro-me via web no banco de dados. Essa é a primeira vez que um ser humano é catalogado nesse banco de dados, já que este tipo de registro foi originalmente projetado para identificação e recuperação de animais perdidos. Eu me registro tanto como animal como como proprietário usando meu próprio nome. Após a implantação, uma pequena camada de tecido conjuntivo forma-se em torno do microchip para evitar migração.

MEMÓRIA E INFORMAÇÃO

A documentação e identificação têm sido os impulsos mais importantes no desenvolvimento das tecnologias da imagem, desde a primeira fotografia até a ubiqüidade das câmeras de vídeo de vigilância. Ao longo dos séculos 19 e 20, a fotografia e demais instrumentos imagéticos funcionaram como uma cápsula do tempo social, possibilitando a preservação coletiva da memória de nossos corpos sociais. No final do século 20, no entanto, testemunhamos uma inflação global da imagem, e o esvaecimento promovido pelas tecnologias digitais do poder sagrado da fotografia como verdade. Hoje não se pode mais confiar na natureza representacional da imagem como agente vital da preservação da memória e da identidade social ou pessoal. As atuais condições nos permitem mudar a configuração de nossa pele por meio de cirurgia plástica com a mesma facilidade com que manipulamos a representação de nossa pele por meio da imagem digital, de tal forma que possamos nos transformar na imagem, de nós mesmos, que desejamos. Associada à capacidade de mudar o corpo e imagem existe a possibilidade de obliteração de sua memória. À medida em que chamamos de "memória" as unidades de armazenamento de informação de computadores e robôs, antropomorfizamos nossas máquinas, fazendo com que elas se pareçam conosco. Ao longo deste processo, de forma sutil, nós também começamos a nos parecer com elas. A memória hoje se encontra em um chip. O corpo é tradicionalmente visto como o sagrado repositório de memórias humanas, adquiridas por herança genética ou através de experiências pessoais. Chips de memória são encontrados corriqueiramente dentro de computadores e robôs e não dentro de seres humanos. Na obra "Time Capsule" a presença do chip ( com seus dados recuperáveis) dentro do corpo nos força a considerar a presença simultânea de memórias internas vividas, e memórias artificiais externas dentro de nós. Memórias externas convertem-se em implantes intracorporais, antecipando situações futuras nas quais eventos como este podem se tornar corriqueiros e levantando problemas acerca de legitimidade e das implicações éticas de procedimentos como este na cultura digital. Transmissões ao vivo na televisão e através da Internet trazem estas questões para perto de cada um, dentro de casa.

INCORPORAÇÃO A BIOTECNOLOGIA

Para considerarmos algumas dessa questões basta examinarmos melhor o presente, e não o futuro. Um exemplo é o rastreamento por radar para monitorar à distância a posição e o comportamento de animais tão pequenos quanto uma borboleta, e tão grandes quanto uma baleia. O surgimento da biométrica,com sua conversão de traços pessoais irrepetíveis - como os padrões da íris e os contornos das impressões digitais - em informação digital, é um sinal claro de que quanto mais a tecnologia se aproxima do corpo, mais tende a permeá-lo. O atual uso bem sucedido de microchips em cirurgias na coluna vertebral abre uma área sem precedentes para investigação na qual funções do corpo são estimuladas e controladas externamente por microchips. A pesquisa médica experimental para a criação de retinas artificiais usando microchips no olho para capacitar o cego a ver, por exemplo, nos obriga a aceitar os efeitos libertadores dos microchips intracorporais. Ao mesmo tempo, a propriedade, a patenteação e a venda legal de mostras de DNA de culturas indígenas na Internet por empresas de biotecnologisas mostra que nem mesmo o mais pessoal de todos os traços biológicos está imune à onipresença da tecnologia.

ÉTICA E TRAUMA

À medida em que vivenciamos, nos dias de hoje, a passagem para uma cultura digital - com interfaces padronizadas e padronizadoras que exigem que ao martelarmos um teclado estejamos sentados à uma mesa com o olhar fixo em uma tela - cria um trauma físico que amplifica o choque psicológico gerado pelos cada vez mais rápidos ciclos de invenção, desenvolvimento e obsolescência tecnológica. Em sua manifestação mais óbvia esse trauma físico assume a forma de dores nas costas e tendinite. Em sua forma menos evidente, a atual interface nos leva a uma contenção generalizada do corpo, o qual é então forçado a moldar-se às formas cúbicas de computador (monitor e CPU). É quase como se o corpo tivesse se tornado uma extensão do computador e não o contrário. Talvez isso apenas reflita uma perspectiva geral da tecnologia, já que a vida orgânica está realmente tornando-se uma extensão do computador à medida em que os vetores emergentes da tecnologia do microchip claramente apontam para fontes biológicas como a única forma dar continuidade ao processo exponencial de miniaturização, para além dos limites dos materiais tradicionais. A necessidade de formas alternativas de experiências na cultura digital é evidente. Em Time Capsule o hospedeiro da memória digital é o corpo humano. Este fato talvez aponte para uma forma não menos traumática, porém, mais livre desta proposição. O corpo com vida necessita de movimentos irrestritos; apenas com a morte o corpo jaz em uma caixa. A presença intradermal de um microchip revela o drama deste conflito à medida em que tentamos desenvolver modelos conceituais que tornam explícitas as implicações indesejadas desse impulso e que, ao mesmo tempo, nos permitam reconciliar aspectos de nossa experiência ainda considerados antagônicos, como o armazenamento e o processamento de informações e a liberdade de movimento, ambientes de network e interfaces úmidas.


Agradecimentos especiais para Dr. Paulo Flavio de Macedo Gouvea e a equipe da Casa das Rosas.


Tradução de Irene Hirsch e Solange Lisboa.


Back to Kac Web