Jesus, Eduardo. "A experiência temporal e estética na inscrição tecnológica da obra transgênica de Eduardo Kac", in: 11o. Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação - Compós, 2002, Rio de Janeiro. Anais do 11o. Encontro Anual da Associação Nacional dos Programas de Pós-graduação em Comunicação - Compós (CD-Rom). Rio de Janeiro: Compós; ECO-UFRJ, 2002.
Tudo
depende do tempo e do acaso.
Eclesiates
A
memória é uma ilha de edição.
Wally
Salomão
1.
O tempo e suas dimensões
Tentar
trazer à luz uma compreensão do fluxo do tempo tem-se revelado
uma experiência das mais complexas, desde
Platão e Aristóteles até Santo Agostinho. Também
para filósofos contemporâneos como Bergsone
Deleuze, a experiência temporal aparece como enigmática. Todos
conhecemos a perplexidade de Santo Agostinho: ìO que é o tempo?
Se ninguém me pergunta, eu sei; porém se quero explicá-lo
a quem me pergunta, então não sei.î[2] As camadas de memória
que recobrem as experiências vividas, o futuro e suas apreensões,
bem como a urgência, quase cega, do presente, impossível de
ser capturado, revelam facetas significativas da nossa experiência
temporal. O presente está entre o que já foi e o que
será e nos coloca diante de um fluxo temporal incontrolável
e impossível de ser explicado. Se não houvesse a mediação
de instrumentos cognitivos e lógicos, não conseguiríamos
compreender o mundo e reorganizar nossas experiências vividas no
fluxo do tempo.
Os
atuais instrumentos tecnológicos, como as redes de TV que transmitem,
via satélite, imagens eletrônicas para todo o mundo, e a Internet,
com seus milhões de computadores conectados, tornam a experiência
temporal contemporânea ainda mais complexa, principalmente por colocarem
em jogo, no cotidiano, formas diferenciadas de experimentar as dimensões
do tempo. Lévy [3](1993) nos mostra que cada época articula
uma determinada maneira de experimentar o tempo que está ligada
diretamente aos instrumentos típicos de cada época e suas
relações sociais, econômicas, políticas e culturais.
Por
analogia com o tempo circular da oralidade primária e o tempo linear
das sociedades históricas, poderíamos falar de uma espécie
de implosão cronológica, de um tempo pontual instaurado pelas
redes de informática.[4]
É
nesse contexto que observamos as obras de mídia arte[5]. Segundo
Virilio (1993), o surgimento
das inúmeras interfaces técnicas nos fazem passar de uma
experiência calcada na tridimensionalidade do real para a bidimensionalidade
da representação (apresentação) da imagem nas
inúmeras telas (cinema, TV e computador)
que povoam nosso dia-a-dia, fazendo com que seja alterada sensivelmente
a nossa noção de tempo e espaço:
Não
estaríamos no direito de nos perguntar se o que insistimos em chamar
de ESPAÇO não seria tão-somente a LUZ, uma luz subliminar,
para-óptica, em relação à qual o brilho do
sol seria apenas uma fase, um reflexo, e isto em uma duração
cujo padrão seria menos o tempo que passa da história e da
cronologia do que o tempo que se expõe instantaneamente; o tempo
deste instante sem duração, um ìtempo de exposiçãoî
(de superexposição ou subexposição) cuja existência
teria sido prefigurada pelas técnicas fotográficas e cinematográficas,
tempo de um CONTINUUM privado de dimensões físicas, em que
o QUANTUM da ação (energética) e o PUNCTUM de observação
(cinemática) teriam se tornado subitamente as últimas referênciasde
uma realidade morfológica desaparecida, transferida para o eterno
presente de uma relatividade cuja espessura e profundidade topológica
e teleológica seriam as deste último instrumento de medida,
esta velocidade da luz que possui uma direção que é,
a um só tempo, sua grandeza e sua dimensão e que se propaga
com a mesma velocidade em todos os azimutes.[6]
É
justamente o tempo entrecortado da experiência mediada pelos instrumentos
de comunicação e suas interfaces que povoa o cotidiano contemporâneo,
revelando o ìeterno presenteî, que conduz, em certo sentido, ao colapso
da memória e à redução da multiplicidade das
dimensões da experiência temporal em favor de uma urgência
colossal pelas trocas e comutações sincronizadas possibilitadas
pelas conexões em rede. Falamos deste deíctico agora,
ou, como escreve Virilio o eterno presente condição
de impossibilidade de apreensão que é sempre cedo demais
ou tarde demais para ser capturado na fluidez da experiência
temporal contemporânea. Se falamos agora e esperamos um pouco,
reinvindicamos um tempo atual, urgente e que está se tornando passado,
ou seja, ìo tempo deste instante sem duração.î Um tempo que
só se articula no presente, no agora urgente das trocas simbólicas
possibilitadas por um sem-número de instrumentos e aparelhos tecnológicos.
As
obras de mídia arte
estabelecem-se nessa conexão entre o agora das trocas simbólicas
mediadas pelos instrumentos de comunicação a distância
e a impossibilidade de apreensão das outras dimensões do
tempo, ou seja, as obras acontecem nesse eterno presente, sem memória,
favorecido pela bidimensionalidade das interfaces, nas quais está
em jogo, todo o tempo, uma experiência estética de novo tipo,
não ligada ao aqui agora, e sim, como já vimos,
ao lá
e agora. Com as alterações na
relação espaço-temporal, essas obras se configuram
no eterno presente da transmissão e da comutação possibilitado
pelas trocas simbólicas mediadas pelas interfaces dos instrumentos
tecnológicos. O que ocorre é um colapso do tempo, no qual
a multiplicidade das suas dimensões são comprimidas no ìeterno
presenteî. Já não há passado e nem há futuro,
pois as obras são experimentadas unicamente através das interações
e das transmissões. Enquanto o visitante interage com a obra, os
sentidos vão emergindo e a experiência estética se
desenvolve. Nenhuma experiência é igual a outra e, apesar
do número de alternativas ser limitado em alguns casos, as combinações
tendem ao infinito, e isso faz com que as experiências não
se acumulem e nem se repitam. O futuro é inexistente porque não
há idéia de qual será o fim ou o desfecho, tudo depende
das ações ligadas ao agora.
Apesar
da ligação quase intrínseca com o presente e com o
agora, podemos perceber que os instrumentos tecnológicos,
base para a criação em mídia arte, são também
instrumentos de captura do tempo que passa. Ao contrário do ìeterno
presenteî que as obras provocam, esses instrumentos servem para registrar
o agora e torná-lo acessível no futuro para resgatar
o passado. São instrumentos que servem para estender nossa memória
e torná-la, enquanto possível, uma forma de acesso ao passado,
por meio de imagens, sons e textos gravados nos mais diversos suportes.
Pode
parecer contraditório que esses instrumentos promovam um registro
e uma acumulação do tempo, enquanto também servem
para tornar eterno o presente nas obras de mídia arte. A chave dessa
questão está na transmissão. Em muitas obras, os instrumentos
não servem simplesmente para registrar ou gravar o tempo, servem
mesmo para possibilitar as transmissões, tal qual as câmeras
em circuito fechado (usadas por Paik e Nauman), responsáveis por
gerar as imagens sem deixar registro. Os instrumentos mais típicos
da mídia arte, canais desenvolvidos para servirem de ligação
entre as dimensões do tempo e torna-lo só presente, também
promovem a transmissão.
Entre
as muitas obras de Eduardo Kac, uma delas estabelece uma interessante conexão
entre a memória como passado remoto, composta por um conjunto de
referências histórico-culturais, ea
memória como dispositivo, que permite guardar e mostrar informações
numa máquina através de um chip. Trata-se de Time
Capsule [7]; obra em que Kac injetou um microchip no seu próprio
corpo.
A
idéia central de Kac é justamente confrontar os dois tipos
de memória: a memória do artista, vinda de sua herança
genética e histórico-cultural (representada analogicamente
pela fotografia) e a inserção de memórias numéricas
ìartificiaisî, armazenadas em dispositivos técnicos. As fotos de
família da avó materna de Kac, dizimada na Segunda Guerra
Mundial, são colocadas pelo artista nas paredes da Casa das Rosas,
em São Paulo, em busca de uma representação da memória
genética e de um confronto entre a antiga mídia através
da qual guardávamos algumas partes da nossa memória, como
é o caso da fotografia e as memórias ìartificiaisî,
agora literalmente implantadas no corpo por meio do chip.
Atualmente,
os computadores e os robôs, bem como uma série de outros instrumentos,
estão povoados com chips que guardam informações
à maneira de memórias que, em vez de serem acumuladas em
suportes físicos, tendo como referente, por exemplo, alguma experiência
vivida, são produzidas e injetadas no corpo. Essas memórias
artificiais servem para acirrar a discussão acerca da biotecnologia
e das conseqüências a serem geradas por operações
dessa natureza quando começarem a acontecer em escala industrial,
etapa em que poderemos compor (e comprar) as memórias. Time Capsule,
segundo Arlindo Machado(1997),
apontapara uma multiplicidade de
leituras, principalmente por se tratar de um evento artístico e
não de uma manifestação política. Machado identifica
duas principais direções na obra: o controle, através
da vigilância, e o implante de memória, para complementar
ou substituir nossas memórias:
Esta
última leitura é claramente autorizada pela associação
que faz o artista entre a implantação de uma memória
numérica em seu próprio corpo e a exposição
pública de suas memórias familiares, suas memórias
externas, materializadas sob a forma de velhas fotografias de seus antepassados
remotos. Essas imagens que estranhamente contextualizam o evento, remetem
a pessoas já mortas e que o artista nem chegou a conhecer, mas que
foram responsáveis pela "implantação" em seu corpo
dos traços genéticos que ele carrega desde a infância
e que carregará até a morte. No futuro, ainda portaremos
esses traços, ou poderemos substituí-los inteiramente por
outros artificiais ou por memórias implantadas?[8]
Kac
confronta duas formas de inscrever a memória, uma ligada ao espaço-tempo
experimentado, representado pela fotografia, e outra absolutamente artificial
de base numérica, a injeção do microchip. Levando-se
em conta as múltiplas leituras permitidas pela obra, podemos também
ver que, em Time Capsule, a memória de Kac e da família
de sua avó é resgatada e conservada por um dispositivo tecnológico
de base analógica a fotografia , cápsula do tempo
que consegue transportar o observador para outro tempo.
A
nova relação entre as memórias artificiais armazenadas
nos microchips e nos instrumentos tecnológicos e as maneiras
usuais de construção da memória são descritas
por Lyotard (1990). O autor diferencia
três tipos de efeito-memória, chamados de efeito-memória
da inscrição tecnológica, ou seja, maneiras de inscrever
a memória por meio dos dispositivos técnicos.
Os
três gêneros de inscrição tecnológica
seriam: de acesso, de varredura e de passagem, a que correspondem, grosso
modo, a três gêneros de síntese do tempo: o hábito,
a rememoração e a anamnese. A descrição que
Lyotard faz desses novos gêneros de inscrição da memória,
apesar de, em alguns momentos, ser excessivamente apocalíptica,
mostra-nos as implicações das novas memórias que povoam
os instrumentos e objetos tecnológicos.
O
acesso, ligado ao hábito, está presente numa estrutura que
serve para assegurar uma circulação dos bens simbólicos
típicos de cada cultura. Os hábitos das culturas, principalmente
as mais tradicionais, incluem também elementos geográficos
e cronológicos, formas específicas de experimentar o espaço
e o tempo: ìSeria melhor falar de lugares e momentos, lugares-ditos e momentos-ditos,
já que, por construção, estas culturas são
nebulosas de hábitos inseridas num espaço-tempo familiar.
Familiar como a terra natal."[9]
Com
a chegada das novas tecnologias, os elementos que promovem o enraizamento
da cultura são deslocalizados e destemporalizados, a começar
com as tecnologias industriais (carvão, vapor e eletricidade), que
colocaram no mundo objetos que exigiam modos (hábitos) de produção,
de troca e de consumo possíveis e válidos fora do território
e do momento da produção.
Atualmente,
as tecnologias disponíveis vão ainda mais longe e passam
a incorporar algumas operações mentais[10], como a apreensão,
o armazenamento e a regulação dos acessos à informação.
Quaisquer dados podem ser úteis a partir do momento em que podem
ser traduzidos em informação. Assim, as informações
tornam-se independentes em relação ao lugar e ao momento
de sua recepção inicial, ìrealizáveis à distância
espacial e temporal, digamos: telegrafáveisî.[11]
As
experiências telegrafáveis inserem-se nas culturas tradicionais
libertando-as do tempo e do espaço característicos da experiência
do aqui e agora, e introduzindo uma produção
espontânea do passado nos hábitos. Tudo passa a ser transmissível:
com isso, os acessos comunitários anteriores são alterados
e podem transformar-se em subculturas. Ora, o
que ocorre com essa nova cultura telegráfica é o deslocamento
da memória, uma alteração dos hábitos que,
tornando-se desgarrados de seus contextos espaço-temporais, geram
o que Lyotard chama de telecultura hegemônica.
As
obras de mídia arte, por se servirem dessa forma ìtelegráficaîde
inscrição, ao serem construídas na distância
das trocas interativas, não conseguem concretizar a construção
espontânea de passado. Não há registro tecnológico
que consiga acumular e guardar as ações e as comutações
sincronizadas proporcionadas pelas obras. O que transita nas obras é
de outra ordem, gerado quase que exclusivamente pelo seu ìeterno presenteî.
Dessa forma, o passado nunca é acessado, porque a maioria das obras
não acumulam as ações e com isso garantem ao visitante
uma experiência sempre única.
Algumas
obras de mídia arte, entretanto, rearticulam a inscrição
tecnológica do hábito e conseguem sair do esquema imediato
das comutações possibilitadas pelos computadores e geram
o passado, inclusive com possibilidade de acesso a ele. Podemos pensar,
por exemplo, em Telegarden
(1995), obra de Ken Goldberg, em que
existe passado e futuro, principalmente porque a obra precisa de tempo
para se desenvolver, já que as plantas semeadas no jardim têm
um tempo de vida, com começo, meio e fim. Cuidadas a distância
pelos usuários da Internet, as plantas semeadas no jardim garantem
um tempo ligado ao hábito. O que era semente torna-se planta, e
as ações dos visitantes repercutem na obra e nas construções
futuras. Como as plantas precisam de tempo para crescerem, ocorre aí
uma construção de um passado que não foi gerado espontâneamente,
que precisou da ação do visitante para se efetivar.
A
mídia arte, de uma forma geral, não se articula na inscrição
do acesso-hábito. Na maioria das vezes, não há passado
na experiência. A única dimensão de passado que está
em jogo é o momento da construção da obra ou ambiente
interativo que acumula procedimentos, definidos pelo artista, que fazem
a obra funcionar e possibilitam o acesso do público. Na experiência
estética gerada pelas obras, o passado não é possível
de ser acessado porque cada experiência é única e porque
cada novo visitante toma a obra do ponto deixado pelo visitante anterior.
A
outra inscrição do tempo definida por Lyotard é a
varredura-rememoração, e diz respeito a uma ìsíntese
do passado como tal e sua reatualização enquanto passado,
no presente da consciência".[12] A rememoração, segundo
Lyotard, está ligada, hoje em dia, à linguagem e a sua dupla
articulação, a semântica e a fonética.
De acordo com este raciocínio, a linguagem é imediatamente apreendida, ela própria, enquanto técnica de um grau superior, metatécnico. Ao contrário dos acessos simples, a memória linguagem implica propriedades desconhecidas pelo hábito: a denotação do que é retido por ela (graças à sua transcrição simbólica), a recursividade (a combinação de sinais é inumerável, a partir de regras generativas simples, da sua gramática), e a referência em si (os sinais de linguagem podem ser denotados por sinais de linguagem: a metalinguagem).[13]
Segundo Lyotard, a linguagem gera o chamado tekhnologos, responsável pelo aparecimento de novos gêneros denotativos de linguagem, bem como a própria ciência, como processo de conquista do desconhecido, de experimentação, para além da experiência cultural tradicional, aquela do tekhnologos recebido do acesso, inscrito nas formas da história e da cultura. Lyotard chama de varredura, esse processo que desconhece sua finalidade, mas que é marcado pelo desenvolvimento e progresso da tecnociência. Segundo Lyotard, ìno princípio da varredura, existe esta exclusão dos fins. Ela revestiu-se de todos os disfarces: destino do homem, progresso, luzes, emancipação, felicidade. Hoje, esta exclusão aparece completamente nua. Saber e poder mais, sim, mas por quê, nãoî.[14]
Podemos
fazer uma associação mais direta entre a varredura e as obras
de mídia arte, principalmente aquelas que se lançam em territórios
pouco explorados e ainda desconhecidos pelos artistas e público
em geral, como é o caso da biotecnologia. Ainda estamos começando
a utilizar esse processo na vida cotidiana e as repercussões já
começam a preocupar a todos. Se a mídia arte assume esses
materiais, processos e suportes como a biotecnologia, certamente um dos
objetivos é alertar para a ausência de finalidade, que em
alguns momentos, a pesquisa científica assume na varredura, despreocupada
em relação às repercussões sociais, políticas,
culturais e, principalmente, éticas, das experiências em curso.
Entretanto,
não acreditamos que a varredura seja a única síntese
do tempo típica da mídia arte. Essa rememoração
ativa precisa de passado, precisa de solidificar-se através de um
acesso contínuo e de um processo de atualização do
passado que ocorre no presente. Se as obras, como vimos anteriormente,
são tipicamente do presente, não é também a
varredura a síntese do tempo mais característica da mídia
arte. No entanto, as obras, para serem interativas, mesmo que minimamente,
precisam de ser programadas. Ou seja, é necessário haver
algum acúmulo, algum procedimento arquivado, para ser resgatado
no momento da interação. Assim, na dimensão da construção
da obra, a varredura é a síntese do tempo típica da
mídia arte, pois, ao experimentar a obra, o visitante não
consegue repetir a experiência da mesma maneira e permanece preso
ao ìeterno presenteî.
Assumindo
uma posição paradoxal, a mídia arte se articula numa
situação limítrofe entre a varredura e a terceira
síntese do tempo, definida por Lyotard como passagem-anamnese, uma
forma de síntese do tempo ligada a uma memória que efetivamente
não teve registro.
Lyotard
busca na obra de Freud subsídios para compreender esta forma de
atualização. A anamnese se coloca sem inscrição,
ou seja, não há um registro que depois possa ser acessado:
o que existe são pequenos vestígios, traços esmaecidos
que funcionam como uma possível lembrança. A questão
é bastante complexa, pois sabemos que nos lembramos somente daquilo
que foi inscrito, mas na psicanálise de Freud encontramos a anamnese,
que é justamente o processo de lembrarmos do que não foi
inscrito ou foi inscrito de forma muito sutil. Lyotard explica: ìÉ
sensato tentar recordar alguma coisa (digamos: alguma coisa) que não
foi inscrita, isto se a inscrição dessa alguma coisa tiver
quebrado o suporte inscritível ou memorável".[15]
É
na transmissão a passagem de um lugar a outro, de um ponto
a outro, totalmente fluido e sem gerar inscrições mais profundas
que o ìeterno presenteî surge na inscrição do tempo
da mídia arte. Na maioria das vezes, os suportes usados pelos artistas
são as plataformas tecnológicas típicas da comunicação
a distância, que promovem um colapso na materialidade dos suportes
artísticos tradicionais e uma verdadeira passagem entre diferentes
contextos. A materialidade dos suportes mais tradicionais como a tela,
a tinta, a pedra e o ferro, entre outros, nos mostra uma inscrição
física, da ordem do passado (foi feita) e, ao ser finalizada,
pode ser exposta para a contemplação do público. Com
os novos meios, a obra se faz na transmissão, não há
inscrição que resista ao fluxo das comutações
sincronizadas (que apelam sempre para o chamado ìeterno presenteî) e não
há inscrição alguma na superfície, o que existe
é só a transmissão.
Freud,
nas suas anotações sobre o Bloco Mágico, revela essa
ìquase inscriçãoî que acaba por revelar, no processo da Psicanálise,
a memória mais escondida de lembranças quase ìimemoráveisî.
Na mídia arte, percebemos algo análogo a esse processo. O
tempo suspenso da transmissão, exclusivamente presente, articula
memória e tempo no momento em que rompe com o suporte, que, ao contrário
de registrar, como a tela e a tinta na pintura ou mesmo a fita de vídeo,
faz com que tudo passe. Os artistas usam instrumentos que, ao contrário
de revelar e gravar a experiência, simplesmente abrem uma passagem
entre contextos espaço-temporais distintos, conectando o que está
longínquo e trazendo-o para perto. Nas obras de mídia arte,
o suporte, em vez de servir para registrar e inscrever, cria passagens,
e a natureza do tempo eternamente presentificado faz com que a obra só
possa existir mesmo com as interações dos visitantes. O que
é paradoxal aqui é que, levada ao extremo, essa experiência
do colapso do tempo provocada pela transmissão colocará em
crise a própria garantia da não-inscrição,
típica do bloco mágico, aquela que rege o inconsciente.
Para
nós, grande parte dos projetos de mídia arte se articula
em torno de uma situação limítrofe entre essas duas
sínteses do tempo, a varredura e a crise da anamnese. Na construção
da obra, o que existe é pura acumulação nas programações,
cálculos e algoritmos que possibilitam a própria existência
da obra, em alguns casos, como um espaço interativo. Por outro lado,
enquanto experiência estética, a mídia arte consegue
alcançar o ìeterno presenteî, uma experiência única
que não deixa inscrições mais profundas. Tudo é
fluidez e transmissão sem acumulação e sem possibilidade
de acessar o passado.
Podemos
ver que as obras de mídia arte, de maneira geral, são construídas
na articulação entre a varredura e a anamnese. A diversidade
de projetos também nos impede de enclausurar as obras nesta ou naquela
forma de inscrição tecnológica. Nesta diversidade,
a obra de Eduardo Kac tem destaque pela ousadia dos projetos e pela incorporação
dos mais diversos suportes e técnicas. Em sua trajetória
artística, diversidade e crítica são palavras-chave
para entendermos seus trabalhos, principalmente pela busca constante de
possibilidades tecnológicas que permitam mostrar como as técnicas
vem alterando a experiência estética e a vida cotidiana das
pessoas num emaranhado entre mercado, possibilidades comerciais, experiências
artísticas e científicas.
O
trabalho de Eduardo Kac, sem dúvida, busca por experiências
artísticas que exponham o visitante ao confronto com os instrumentos,
aparelhos e técnicas típicas da vida cotidiana em articulações
que subvertem e reposicionam as utilizações mais ordinárias,
típicas do uso comercial. Assim, surge um uso mais crítico
da tecnologia, que convida o visitante a experimentar a obra e a refletir,
entre outras coisas, sobre o papel da mediação tecnológica
na contemporaneidade.
A obra de Eduardo Kac é bastante extensa. Podemos dividi-la em três fases: a poesia marginal e a holopoesia, os projetos de telemática e, por fim, a entrada no domínio da biologia e da biotecnologia. Apesar da riqueza dos trabalhos desenvolvidos na fase da telemática como as muitas versões do Projeto Ornitorrinco, Rara Avis, Darken than night ou Teleporting to unknown state, obras fundamentais para o desenvolvimento da arte telemática e que, sem dúvida, já traziam algumas sugestivas aproximações entre o universo tecnológico e o ambiente biológico, iremos focar aqui nas últimas obras de Kac voltadas quase que exclusivamente para o domínio da biotecnologia. Ao associar características das obras telemáticas em novos projetos voltados para a biotecnologia, Kac complexificou ainda mais os projetos artísticos estabelecendo novas possibilidades de experiências temporais e estéticas
3.
Novos suportes, novas possibilidades
Como
traço mais distintivo da trajetória de Kac, vimos que a biotecnologia
e biologia sempre estiveram presentes e foram tornando-se mais complexas,
provocando reposicionamentos e estabelecendo novos campos para a experiência
estética contemporânea.
Fazem
parte desta fase mais recente três projetos; uma obra completa, outra
incompleta e um projeto que ainda não foi realizado. Bastante polêmicas
e ampliando a discussão acerca do debate levantado pelo recente
mapeamento do código genético, estas obras mais recentes
de Kac incorporam os elementos tecnológicos e biotecnológicos
e estabelecem formas de transmissão que transcendem os esquemas
mais diretos dos instrumentos de comunicação provocando repercussões
nos meios de comunicação, na comunidade acadêmica e
na sociedade em geral tomando, mais uma vez, uma postura bastante crítica.
Genesis
mostra o envolvimento de Kac com as questões genéticas e
parece conseguir materializar as preocupações propostas nas
obras e divulgadas em seu ensaio Transgenic Art, (1998). Neste texto,
Kac vai colocando exemplos para mostrar como, ao longo da história,
o homem, mesmo antes do mapeamento do DNA, vem alterando, através
de métodos menos precisos, mudanças em animais e vegetais,
como a Rosa-Chá, primeira espécie de rosa híbrida
produzida pela primeira vez em 1867 ou mesmo as araras. O autor fala de
seres imaginários como a chimera, um animal mitológico, inúmeras
vezes representado na antiguidade, como uma mistura de serpente, leão
e águia. Entre os animais domésticos, o cão, segundo
o autor, é um dos animais que foram sendo construídos. Assim,
Kac propõe o projeto K-9, que consiste basicamente na criação
de um cachorro transgênico, anunciando assim uma nova forma de arte,
a arte transgênica.
O projeto K-9 visava promover a inserção em um pequeno cão de genes de uma água viva, que emite luz fluorescente. O projeto, que expõe os limites entre ciência, tecnologia e arte, não foi realizado devido a problemas no mapeamento do código genético do cachorro. Mas apesar de não realizado, abriu uma enorme discussão que serviu para realizar, pelo menos em parte outro projeto de Kac, o GFP Bunny. Um projeto que vai se desdobrandoprogressivamente, começando com a injeção de DNA da água viva na coelha Alba, fazendo com que seu ao ser exposta a luz infra vermelha torne-se verde fluorescente. A primeira fase do projeto foi realizada em abril de 2000, com o nascimento de Alba, abrindo o complexo evento (ou projeto) GFP Bunny, que não se restringe simplesmente a criação do coelho, mas diz respeito também a uma série de outros desdobramentos, como nos mostra Kac:
The "GFP Bunny" project is a complex social event that starts with the creation of a chimerical animal that does not exist in nature (i.e., "chimerical" in the sense of a cultural tradition of imaginary animals, not in the scientific connotation of an organism in which there is a mixture of cells in the body) and that also includes at its core: 1) ongoing dialogue between professionals of several disciplines (art, science, philosophy, law, communications, literature, social sciences) and the public on cultural and ethical implications of genetic engineering; 2) contestation of the alleged supremacy of DNA in life creation in favor of a more complex understanding of the intertwined relationship between genetics, organism, and environment; 3) extension of the concepts of biodiversity and evolution to incorporate precise work at the genomic level; 4) interspecies communication between humans and a transgenic mammal; 5) integration and presentation of "GFP Bunny" in a social and interactive context; 6) examination of the notions of normalcy, heterogeneity, purity, hybridity, and otherness; 7) consideration of a non-semiotic notion of communication as the sharing of genetic material across traditional species barriers; 8) public respect and appreciation for the emotional and cognitive life of transgenic animals; 9) expansion of the present practical and conceptual boundaries of artmaking to incorporate life invention.[16]
Certamente
este projeto de Kac opera em níveis mais altos de complexidade em
relação aos anteriores, principalmente por abrir e incorporar
o debate acerca da biotecnologia na sociedade atual. Kac assume uma postura
crítica ao usar seu projeto artístico para trazer à
tona, questões importantes sobre as conseqüências do
mapeamento do código genético e seu uso na sociedade em projetos
meramente comerciais. Muitas vezes, o discurso científico
está longe das pessoas comuns e deixa encoberto interesses econômicos
e comerciais que acabam, na maioria da vezes, confundindo as pessoas e
gerando idéias errôneas sobre os desdobramentos da biotecnologia
e dos produtos transgênicos.
A
primeira etapa do GFP Bunny foi realizada, mas com problemas que,
de certa forma, ajudaram a tornar a discussão mais pública,
um dos objetivos do projeto. No entanto, por outro lado, fizeram com que
o projeto fosse, pelo menos por enquanto, interrompido.
A
segunda fase do projeto de Kac era iniciar um debate sobre as questões
biotecnológicas, e que ocorreu com a comunicação pública
do nascimento de Alba, em maio de 2000, na conferência Planet Work
em San Francisco, Estados Unidos. A fase posterior ficou sacrificada. Tratava-se
de levar Alba para viver na casa do artista como um animal de estimação
comum, mostrando como os animais transgênicos podem se relacionar
normalmente como os outros.
Nesta
fase o projeto foi interrompido. Apesar de previsto, o último desdobramento
foi vetado pelo centro onde Kac trabalhou. No entanto, toda a polêmica
gerada pelo direito de ficar ou não com Alba fez com que a notícia
se espalhasse rapidamente em quase todos os principais jornais do mundo.
Os cientistas que comandam o Instituto Nacional de Pesquisa Agronômica
(INRA), da França não permitiram a saída de Alba do
Laboratório.
ìNão
quero mais ouvir falar nessa história de coelho verdeî, indigna-se
Louis-Marie Houdebine, diretor de pesquisas do Inra, responsável
pelo grupo de diferenciação celular no centro de Jouy-en-Josas,
um dos criadores de Alba. "Esse animal não é uma fantasia
de um pesquisador louco. É descendente de animais transgênicos
primários. Temos atualmente em nosso poder sete ou oito desse tipo,
destinados a pesquisas sobre desenvolvimento embrionário".[17]
Kac
avisou, também em entrevistas pelos principais jornais do mundo,
que não iria entrar na justiça pelo direito de ficar com
Alba, mas que continuaria respondendo e esclarecendo os pontos mais polêmicos
apontados, pelos jornais e pelos cientistas, o que, de certa forma, faz
com que o projeto se desenvolva.
Os
dois projetos, GFP Bunny e K 9, serviram de base para Kac
desenvolver Genesis, seu trabalho mais recente e que faz a conexão
entre a interatividade, as transmissões, o ambiente das telecomunicações
e o da biotecnologia.
Para
realizar a obra, Kac traduziu o texto bíblico, primeiramente para
código morse e depois, com o apoio de cientistas, traduziu-o para
uma sequência de DNA (ácido desoxirribonucléico) que
foi, em seguida, transformado em plasmídeo e injetado em bactérias
E-coli. A tradução do código morse foi feita
da seguinte maneira: os traços representam a Timina, os pontos a
Citosina, o espaço entre as palavras a Adenina e o espaço
entre as letras a Guanina, os quatro elementos fundamentais do DNA que,
combinados formam o código genético. Pela internet e também
no espaço da instalação, os visitantes, através
do simples gesto de tocar em um botão, podiam provocar mudanças
naquela forma de vida desenvolvida ali.
As
bactérias que contém o gene Genesis, ao serem submetidas
a luz ultravioleta emitem uma fluorescência ciano (azul esverdeado)
e as bactérias que não contém o gene, ao serem submetidas
à mesma radiação, emitem uma fluorescência amarela.
Conforme as bactérias vão entrando em contato umas com as
outras, ocorre um processo de transferência, que pode produzir três
variações cromáticas: se as bactérias ciano
doarem seus plasmídeos, ou vice versa, teremos bactérias
verdes; se nenhuma doação ocorrer a cor das bactérias
continua a mesma; e se elas perderem seus plasmídeos, tornam-se
ocres. A mutação pode ocorrer a partir de três fatores:
o processo de multiplicação natural das bactérias,
a interação dialógica das bactérias e a emissão
de luz ultravioleta que ainda serve para acelerar o processo de troca e
alteração cromática.
Genesis,
antes de ser apresentada no Instituto Cultural Itaú, em São
Paulo, foi mostrada na Ars Eletronica, em Linz na Aústria,
também em 1999. Em Linz, Kac fez o caminho de volta da experiência:
após as mutações da bactérias, refez o código
genético, o que gerou um outro texto, com pequenas alterações,
como nos mostra Arlindo Machado:
O resultado é um texto corrompido, ligeiramente desarticulado, mas pleno de possibilidades interpretativas, podendo ser entendido como uma espécie de resposta rebelde da natureza à prevenção divina de designar o homem como senhor de todas as formas vivas do universo.[18]
O
encontro com as estruturas tipicamente científicas no espaço
da galeria e a grande projeção mostram que trata-se de uma
forma híbrida de produzir arte, de apropriar-se de estruturas distantes
do universo artístico e fora dos materiais mais comuns usados na
construção das obras de arte. Especificamente no caso das
obras de Kac as apropriações do ambiente científico,
mais especificamente do domínio da biotecnologia, vem refletindo
preocupações que aparecem desde Time Capsule. No entanto,
ocorre que se anteriormente, seus trabalhos eram mais dialógicos
e viabilizavam isso de forma mais visível ao visitante, com muitas
possibilidades de interação e construção conjunta
da obra, agora a interatividade toma outro sentido.
Nesta
última obra de Kac parece que, se por um lado há um avanço
em relação aos esquemas, conceitos e materiais utilizados
na construção da obra, por outro parece que há um
retorno. A experiência dialógica provocada pela interação
retorna a esquemas de interação mais contemplativos e menos
interativos, no sentido de construção da obra. Não
que haja uma classificação das obras ou mesmo uma escala
de valor, mas percebemos neste projeto de Kac um abandono das estruturas
de comunicação como ponto de partida para a criação.
Como nos fala Arlindo Machado, comentando a obra de Kac:
Nos
últimos anos, o trabalho de Kac radicalizou na direção
dos aspectos mais propriamente biológicos de sua indagação
e assumiu de modo mais categórico a tarefa de "criar obras vivas",
no sentido que Villem Flusser falava.[19]
Este
sentido que Flusser fala é justamente o de abrir espaço para
o ambiente artístico se apropriar dos avanços da biotecnologia,
dividindo a tarefa com os técnicos e cientistas. Isto pode ser visto
nitidamente no projeto GFP Bunny, no qual Kac enfatiza o caráter
político da arte transgênica ao proporcionar, para um número
maior de pessoas, mais informação sobre os desenvolvimentos
da genética, levando este conhecimento para suas implicações
sociais, políticas e étnicas.
This
is where art can also be of great social value. Since the domain of art
is symbolic even when interveninig directly in a given context, art can
contribute to reveal the cultural implications of the revolution underway
and offer different ways of thinking about and with biotechnology. Transgenic
art is a mode of genetic inscription that is at once inside and outside
of the operacional realm of molecular biology, negotiating the terrain
between science and culture.[20]
Com
Genesis se inicia um novo tempo. A interação através
dos instrumentos de comunicação,
como ponto de partida, dá lugar a questões mais ligadas ao
efeito da biotecnologia na sociedade atual e com isso se apropria de esquemas
mais científicos para criar a obra. Não podemos deixar de
ver, que por outro lado, as interações em Genesis
aparecem em esquemas mais sofisticados e mais híbridos entre ciência
e arte, e a interação torna-se mais simples, nos esquemas
formais. Afinal, ao visitante só é permitido apertar um botão,
fazendo somente uma escolha que apesar de simples, está simbolicamente
carregada de significados, já que com este toque de botão
altera-se um organismo vivo, como fala Arlindo Machado:
O
mais importante, porém, é observar como essa instalação
singela transforma o ato mais banal do mundo tecnológico -- apertar
um botão, seja ele o botão do mouse ou de qualquer outro
dispositivo -- num gesto carregado de sentido, pois não se trata
mais de fazer aparecer ou desaparecer imagens, textos ou sons, mas de interferir
sobre o próprio processo da vida. Em Genesis, Kac nos coloca numa
situação de responsabilidade, convidando-nos a refletir sobre
as implicações de cada um de nossos gestos.[21]
Passamos
de uma interação na qual os instrumentos de comunicação
à distância ampliam a percepção humana para
uma interação em que estão em jogo formas de vida
e desdobramentos biológicos. Sem dúvida, nesta trajetória
das obras mais recentes de Kac a preocupação com as repercussões
da biotecnologia combinada com os avanços da informática
geraram esquemas mais complexos e subjetivos, que apontam para uma visão
ainda mais crítica e que tenta provocar uma reflexão no visitante.
4.
Experiência temporal e estética no domínio da biotecnologia
Depois
de apresentarmos o percurso de Kac no ambiente biotecnológico, podemos
indicar algumas implicações que suas obras trazem para o
campo da experiência estética.
Nesta
atual fase biotecnológica, a obra de Kac reinvidica
ainda mais as implicações estéticas e éticasde
uma inscrição num ìeterno presenteî. Se nas obras mais voltadas
para o domínio da telemática o suporte intensificava a transmissão
(como no Projeto Ornitorrinco), enfatizando
o colapso do tempo, por meio da biotecnologiaKac
estabelece uma obra que vai se construindo através dos organismos
vivos.Existem algumas previsões
sobre o desfecho da obra, mas a construção mais uma vez é
da ordem do presente, do ìeterno presenteî, que vai se desdobrando através
das interações entre as bactérias, que podem ser provocados
ou não pela interação dos usuários.
Passamos
a ter uma criação que, mesmo sem a ação direta
dos participantes distantes, continua (eternamente) a ser construída
(ou, pelo menos, até a experiência ser paralizada). Passamos
da utilização de plataformas interativas para o uso da própria
vida como material e suporte para a produção artística.
A inscrição que existe ocorre internamente nos genes produzidos
artificialmente, o que nos conduz, mais uma vez, à questão
das memórias artificiais. Obras como Genesis chegam mesmo
a assustar o público que conhece outros trabalhos de Kac, pela quase
ausência de características interativas. No entanto, por outro
ponto de vista, a obra está em constante interação
e não pára nem mesmo quando o museu está fechado (ou
quando falta energia), já que as bactérias ficam continuamente
processando trocas.
Há
aqui uma mudança de foco na trajetória de Kac, que, se por
uma lado parece frustar
os mais entusiastas da interatividade, por outro lado enfatiza a característica
mais central da sua obra e também da mídia arte o tempo
presentificado. Agora, ao contrário de termos esta presentificação
através das comutações e transmissões sincronizadas,
passamos a encontrá-la situada internamente no ìmaterialî da obra
(as interações entre as bactérias).
O
texto do livro bíblico Gênesis, escrito por inspiração
divina e que faz parte da própria constituição do
código genético das bactérias, está entregue
ao acaso das comutações que elas irão operar, com
ou sem a participação da homem. O texto bíblico, que
afirma que o homem tem o poder sobre todas as coisas da terra, do céu
e dos mares, ironicamente, está entregue a uma colônia de
bactérias sem que o homem possa interferir.
Podemos
até mesmo falar de um eterno presente internalizado em cada uma
das bactérias. No entanto, pela primeira vez, Kac realiza uma obra
com uma articulação com o tempo futuro, já que depois
das bactérias terem sido alteradas através da luz infra vermelha
e das trocas com outras bactérias, o artista retoma a obra e verifica
o resultado do texto bíblico. O colapso do tempo parece mesmo ter
alcançado o ponto máximo.
Se
antes da incorporação da biotecnologia alcançávamos
o colapso do tempo gerado pelo ìeterno presenteî da transmissão,
agora temos um tempo presente que mostra a ìconstruçãoî da
obra imediatamente. Não é mais a transmissão que provoca
o eterno presente, mas a própria obra é vista, em plena construção.
Observar a obra é ver o presente passar e o tempo quase reconstituir-se.
Agora
não há mais os esquemas diretos de interação
entre máquina e visitante, que permitiam a construção
e a experiência da obra. No caso de Genesis, o raio de luz
que atinge as bactérias pode ou não acelerar as mutações,
tudo depende mesmo do material, ou seja, das próprias alterações
incontroláveis que as bactérias fazem por si mesmas.
A
forma de inscrição tecnológica que surge aqui é,
mais uma vez, aquela que põe em crise a própria possibilidade
de constituição da anamnese. As ações interativas
dos visitantes não se inscrevemde
forma definitiva no curso de construção da obra, são
apenas pequenos vestígios que podem ou não alterar a vida
das bactérias e o destino da obra. Em obras como o Projeto Ornitorrinco
inscreve-se o eterno presente na impossibilidade de acumulação
de passado, ao passo que aqui o que emerge é o eterno presente da
obra que nunca para de ser construída, principalmente por ser construída
com matéria viva.
A
situação limítrofe entre a varredura e a anamnese
permanece nesta obra. A matéria viva acumula as ações
incontroláveis de suas comutações, deixando de fora
o homem. O eterno presente da contemplação da obra viva,
que põe em crise a anamnese, articula-se agora com a varredura através
dos procedimentos prévios que ao artista propôs, na criação
dos genes e na construção da obra em si. O tempo eternamente
presentificado, produzido pela transmissão, em projetos como o Ornitorrinco,
passa agora a residir na obra devido à natureza incontrolável
do suporte: a vida.
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Franklin Leopoldo. Tempo Realidade e símbolo. In: Revista
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MACHADO,
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MACHADO,
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Jean-François. O
inumano, considerações sobre o tempo.
Lisboa: Editorial Estampa, 1990.
EDUARDO,
Kac. Trangenic Art. Disponível
em <http://www.ekac.org>
[1]
Professor Assistente III de Novas Tecnologias no Deptº de Com. Social
da PUC-Minas. Mestre em Comunicação pela UFMG
[7]A
obra foi realizada em São Paulo, na Casa das Rosas em 1997 dentro
do evento Arte Suporte Computador.
[8] MACHADO,
Arlindo. Um microchip no corpo. Disponível em <http://www.ekac.org.>.
Acessado em: 13 maio 2001.
[11] LYOTARD, Jean-François. O inumano, p.57.
[12] LYOTARD,
Jean-François. O
inumano, p.59.
[17]
MACHADO, Arlindo. Por uma arte transgênica. Disponível em:<
http://www.ekac.org. > Acesso em: 27
maio 2001