CYPHER, UM KIT TRANSGÊNICO DIY

Eduardo Kac



Eduardo Kac, Cypher, Kit Transgênico-DIY com placas de Petri, agar, nutrientes, pipetas, alças de transferência, tubos de ensaio, DNA sintético, livreto, 33 x 43 cm, 2009.




Vista da exposição realizada no centro de arte Rurart, France, 2009.
Veja aqui mais fotos de Cypher.


CYPHER, UM KIT TRANSGÊNICO DIY


Eduardo Kac

 

"Cypher"é ao mesmo tempo escultura, livro de artista e um kit transgênico DIY (do it yourself, i.e., faça você mesmo). A obra mede aproximadamente 33 x 43 cm e é contida em um estojo de aço inoxidável. Quando removido do estojo, o kit — também de aço inoxidável — abre-se em duas metades, como um livro. Dentro, o espectador/usuário encontra um minilab portátil. O kit contém placas de Petri, agar, nutrientes, pipetas, tubos de ensaio, alças de transferência, DNA sintético (com codificação em sua sequência genética de uma poema que escrevi especialmente para esta obra), e um livreto contendo o protocolo de transformação, cada qual no seu respectivo compartimento.

A obra literalmente ganha vida quando o espectador/leitor/usuário segue o protocolo no livreto e integra o DNA sintético nas bactérias (a "transformação"). As bactérias (normalmente pálidas) brilharão em vermelho, mostrando através deste marcador visual transgênico que a obra agora está viva. Como na divisão bacteriana duas células idênticas (clones) são sempre produzidas, após a transformação o poema será plenamente integrado ao sistema celular da bactéria e, portanto, estará presente em cada nova reprodução da bactéria.

"Cypher" hibridiza visualmente escultura e livro de artista: é um objeto de metal tridimensional (com revestimento interno aveludado, finalizado à mão com técnicas industriais e complementado com objetos de vidro). A obra é inicialmente tratada pelo observador como um livro, se revelando então um laboratório portátil, nomádico. O gesto poético chave em "Cypher" é colocar nas mãos do espectador a decisão e o poder de literalmente dar vida à arte.

O DNA sintético em "Cypher" codifica em sua seqüência genética um poema que escrevi especialmente para esta obra. Este código substitui letras presentes no poema por pequenas seqüências de DNA (i.e., sequências de duas ou três bases genéticas). O poema "Cypher" é composto com uma alta incidência estatística das quatro letras que representam as quatro bases genéticas adenina, citosina, guanina e timina, ou seja, as letras A, C, G, e T. O conjunto de letras restante é formado por quatro consoantes e duas vogais: essas seis letras adicionais foram cuidadosamente selecionadas para formar um "código dentro do código", que serve como contraponto semântico ao significado aparentemente enigmática do poema. O resultado deste processo é que poema e código complementam um ao outro de tal forma que o código é parte integral do poema. Ambos estão incluídos no livreto presente no kit, permitindo ao espectador descobrir esta relação ao seguir o protocolo para dar vida ao poema. O título manifesta uma relação anagramática entre signo e referente, que é, em si, também parte integral da obra.

"Cypher" é uma obra que se apresenta como um convite. Ao leitor é proposto ativar um conjunto de procedimentos que fundem arte e poesia, vida biológica e tecnologia, leitura/visualização e participação cinestésica. A relação do objeto escultórico com o livro é reforçada pelo fato de que o título da obra é gravado sobre a lombada do estojo e na “capa” (a frente do kit). A obra pode ser colocada em uma estante e ser claramente identificada. Quando a obra é aberta, o espectador descobre um kit transgênico completo. A "leitura" do poema é realizada através da transformação do E. coli com o ADN sintético fornecido. O ato de leitura é de natureza processual, ou seja, requer etapas consecutivas nas quais ações específicas são implementadas. Ao seguir o procedimento indicado, o participante cria um novo tipo de vida — ao mesmo tempo literal e poética.


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